Jorge lhe respondeu:
"Oxalá, oh imperador, que conhecendo tu por mim. O
verdadeiro Deus, lhe oferecesse o sacrifício de louvor, que ele pede e
deseja; e eu ficarei por fiador de que ele Senhor de outro mais excelente
império do que tens, que é o reino que dura para sempre; porque este que
agora possuís, cedo se há de acabar. E sabe de certo que nenhum desses
bens que me prometes, poderão de alguma maneira afastar-me de meu Deus,
nem algum gênero de tormento que inventares poderá tirar de mim o amor de
meu Redentor nem causar em mim temor algum da morte temporal". Ouvindo
isto o imperador, cheio de ira mandou aos soldados que o deitassem fora da
Assembléia com lançadas, e o metessem no cárcere. Fizeram logo os soldados
o que lhes fora mandado, mas, a ponta da lança com que lhe tocou no corpo
um soldado, dobrou como se fora de chumbo, e Jorge não cessava de dizer
divinos louvores. Sendo ele posto no cárcere, estenderam-no em terra e
puseram-lhe grilhões nos pés e sobre o seu peito uma grande pedra. Tudo
isso lhes mandou o tirano fazer; mas sofrendo o tormento com muita
paciência, não cessou até o dia seguinte de dar graças a Deus.
Sendo
manhã, o imperador mandou-o vir perante si, e estando Jorge muito
atormentado com o peso da pedra, disse-lhe o imperador: ."Tornaste já
sobre ti, Jorge?". Respondeu o jovem: "Por tão fraco me tens imperador,
que cuidas que um tormento de meninos e tão pequeno, havia de me afastar
de Cristo e negar a verdade, primeiro cansarás tu em me atormentar, do que
eu sendo atormentado". Disse Diocleciano: "Eu te darei tantos tormentos
que te acabarão a vida". Mandou logo trazer uma roda grande e cheia de
navalhas e meter o jovem nela para ser despedaçado. Estava esta roda
pendurada, e por baixo tinha umas tábuas nas quais estavam pregadas muitas
pontas agudas como canivetes de sapateiro. Puseram-no entre as tábuas e a
roda, atado com loros e cordas, tão apertado que dentro da carne se
escondiam as cordas; e voltando a roda, todo o corpo lhe ficava cruelmente
ferido. Este espantoso gênero de tormento sofreu Jorge com grande ânimo; e
fazia oração ao Senhor, e depois ficou como adormecido por um bom espaço
de tempo. Vendo isto, Diocleciano, e cuidando que já
estava morto, ficou alegre e começou a louvar os seus deuses, e dizia:
"Onde está o teu Deus, Jorge? Por que não te livrou deste tormento?"
Mandou então tirá-lo do tormento. e partiu para ir sacrificar a Apolo; mas
logo apareceu uma nuvem no ar, e viu um grande trovão, e soou uma voz que
muitos ouviram, a qual disse: "Não temas, Jorge, porque estou contigo".
Daí a pouco viu-se grande serenidade, e foi visto um homem vestido de
branco estar em cima da roda, muito resplandecente no rosto, e deu a mão
ao Santo Mártir, e abraçando-o mandou desatá-lo; e logo desapareceu aquele
varão de tanta claridade e ficou Jorge solto, livre e são, dando graças a
Deus.
Os soldados que o guardavam ficaram fora de
si, espantados de tal visão, e deram logo novas do que se passava ao
imperador que se achava no templo. Vendo o imperador a Jorge, dizia que
não podia ser aquele o mesmo Jorge, mas outro que se parecesse com ele. Dois corregedores, um chamado Anatólio,
outro Petroleu, sendo antes criados na fé de Cristo, vendo o milagre
cobraram ousadia, e em alta voz disseram: "Um só é Deus, grande e
verdadeiro, que é o Deus dos cristãos", aos quais mandou logo o imperador
levar para fora da cidade e cortar-lhe as cabeças, Muitos se converteram,
então, ao Senhor tendo fé dentro de si, mas não ousavam descobrir-se com
temor da morte e tormentas. Também a imperatriz Alexandra, conhecendo a
verdade e começando a querer falar livremente, um cônsul a retirou, e
antes que o imperador entendesse a causa, a deixou no seu palácio. Não
sofrendo Diocleciano com estas coisas mandou meter Jorge em uma fornalha
de cal virgem, três dias, e mandou vigiar, que lhe não viesse de nenhuma
parte ajuda alguma. Sendo levado a esse tormento preso, ia fazendo oração
a Deus em alta voz, dizendo: "Senhor meu, ponde os olhos de vossa
misericórdia em mim, e livrai-me das ciladas do inimigo, e concedei-me que
até o fim confesse o vosso santo nome. Não digam os meus inimigos por
minhas maldades: Onde está o teu Deus? Mandai, Senhor, o vosso Anjo em
minha guarda, assim como transformaste a fornalha de Babilônia em orvalho,
e os moços que estavam dentro, conservaste sem lhes fazer mal o fogo".
Dito isto, e fazendo o Sinal da Cruz em
todo o corpo, com grande alegria entrou no forno de cal. Os ministros e
soldados que foram mandados pra executores destes tormentos, depois de o
deixarem no forno se retiraram. Ao terceiro dia, chamou o imperador alguns
soldados e disse: "Não fique na memória aquele mal-aventurado Jorge, para
que não haja quem honre as suas relíquias; portanto ide, e se achardes
algum osso subterrai-o, que não apareça mais." Foram os soldados,
seguindo-se grande multidão de povo para ver o que se passava. Descobrindo
o cal acharam dentro Jorge com o rosto resplandecente; o qual, levantadas
as mãos para o céu, dava louvores a Deus por todos os seus beneficies; e
saindo do forno sem algum mal que lhe fizesse a cal, todos se espantaram
de tão maravilhosa causa, e Louvaram o Deus de Jorge.
Chegou a nova deste milagre a Diocleciano,
este mandou chamar a Jorge e muito espantado lhe disse: "Jorge, com que
artes fazes estas maravilhas?" Respondeu-lhe: "Oh! cego imperador, que
chamas artes as maravilhas de Senhor, por isso choro tua cegueira".
Disse Diocleciano: "Agora veremos Jorge, se
diante dos nossos olhos fazes milagres. Mandou então o tirano trazer umas
chinelas de ferro ardente, e mandou-lhas meter nos pés, e desta maneira, o
fez levar ao cárcere. e indo açoitando e zombando dele, diziam: "Oh! Como
Jorge corre, ligeiramente", mas o mártir sendo tão cruelmente levado e
açoitado, ia muito alegre dizendo a si mesmo: "Corre Jorge, para que
alcances o prêmio". Depois orando, dizia: "Senhor, olhai o meu trabalho e
ouvi os gemidos de vosso preso, porque os meus inimigos se multiplicaram e
me tiveram grande ódio pelo vosso nome; mas vós Senhor, me sarai, porque
todos os meus ossos estão atormentados, e dai-me paciência até o fim, para
que não diga o meu inimigo: 'Prevaleci contra ele'. " Desta maneira passou
Jorge até chegar ao cárcere, indo muito atormentado das chagas que lhe
fizeram nos pés os pregos ardentes que as chinelas de ferro tinham para
cima. Passando o Santo todo aquele dia e noite em dar graças a Deus, no
dia seguinte foi levado diante do imperador, o qual estava sentado junto
ao teatro público, estando presente todo o senado.
Vendo o imperador Jorge andar tão bem e sem sacrifícios como se não
recebera algum mal, disse-lhe. "Jorge, as chinelas foram para ti
refrigério?". Respondeu Jorge: "Sim, foram". Disse o imperador: "Deixa já
a tua ousadia e arte mágica, vem para nós e oferece sacrifício aos deuses,
pois de outra maneira serás atormentado com diversos tormentos".
Respondeu Jorge: "Quão ignorante te mostras, pois chamas feitiços ao poder
do meu Deus e por outra parte dás honras, aos enganos dos diabos que
adoras".
O tirano mandou aos que estavam presentes
que o ferissem no rosto , dizendo: "Assim te ensinaram a dizer injúrias
aos imperadores? E depois disto mandou que o açoitassem com nervos de
búfalo, até que fosse desfeito seu corpo. Sendo Jorge tão sem piedade
atormentado, e não mudando a alegria do rosto, disse o tirano "Certamente
não chamarei a isto obras de virtude, mas arte mágica". Disse então
Magnencio ao imperador: "Senhor, mandai chamar um homem que aqui mora,
grande mágico e com ele será vencido Jorge". Foi, logo, chamado o
feiticeiro e lhe disse Diocleciano: "Todos os que estamos presentes
sabemos o que este maldito Jorge faz; mas porque arte o faz, tu no-lo
declararás. E rogo-te que destruas seus feitiços e o faças obedecer-nos."
Prometeu então Athanasio, (o mágico) que no dia seguinte faria tudo que
lhe ordenava; e mandou o imperador guardar Jorge no cárcere, no qual ele
invocava o nome do Senhor, dizendo: "Seja Senhor, a vossa misericórdia
sobre mim, e encaminhai meus passos na confissão de vosso Santo nome, e
acabai minha vida na vossa fé, para que em tudo seja o vosso louvado".
No dia seguinte, estando Diocleciano no teatro, mandou vir o mágico, o
qual veio muito vaidoso e mostrando ao imperador umas bebidas e disse:
"Seja trazido aqui, Jorge e vereis a força destas bebidas; pois se quereis
que obedeça dêem-lhe de beber o que trago neste vaso. E se quereis que
morra dêem-lhe deste outro vaso".
Mandou o imperador vir perante si Jorge, e disse-lhe: "Agora, Jorge, serão
acabadas as tuas artes mágicas", e mandou que por força bebesse um
daqueles vasos; mas o Santo sem algum temor o bebeu sem lhe fazer mal; e
finalmente esteve muito constante na fé e ficou a arte do diabo
desprezada. O imperador vendo isto, mandou-lhe dar a
outra bebida quê o constrangessem a bebê-la; mas o bem-aventurado Jorge
não esperando que o forçassem, pela divina virtude bebeu a outra sem lhe
fazer mal algum.
Ficou o imperador pasmado e espantado e todo o senado e mesmo o feiticeiro
de tamanha maravilha; e disse o imperador a Jorge mártir: "Até quando nos
há de pôr em espanto com isto que fazes? Por que não acabas de confessar a
verdade? Como escapas tão facilmente do veneno que te dão a beber e como
desprezas os tormentos?" Respondeu Jorge: "Não cuides, imperador, que
somos livres por alguma humana providência, más só pelo poder e virtude de
Cristo; e confiados nele, não fazemos caso dos tormentos seguindo sua
"doutrina". Disse então Diocleciano: "Que doutrina é a de teu Cristo?
Respondeu Jorge: "Conhecendo o Senhor, a diligência que vós outros haveis
de ter em perseguir os Santos, não temais aqueles que matam o corpo, nem
façais caso das coisas transitórias; sabeis de certo que um cabelo de
vossa cabeça não perecerá; e ainda que bebas veneno não vos fará mal."
Finalmente prometeu-nos dizendo: "Aquele que crer em mim fará as obras que
eu faço". "Que obras são essas? "Dar vistas aos cegos, curar leprosos
fazer andar os mancos, abrir ouvidos aos surdos, expelir os demônios dos
corpos, ressuscitar os mortos e outras coisas semelhantes a estas".
Virou-se então o imperador para Athanazio,
o mágico e lhe disse: "Que dizes tu a estas coisas?" Respondeu Athanazio:
"Admiro-me de ver como este jovem despreze a vossa mansidão com suas
mentiras; más já que ele diz, que os que esperam no seu Deus farão as
obras que ele faz, ali naquele sepulcro que está diante de nós, está um
defunto, que eu conheci, e pouco tempo há que ali o sepultaram; se Jorge o
ressuscitar, sem nenhuma dúvida adoremos o seu Deus". Então o imperador
fez sinal a Jorge que o experimentasse. Pediu então Magnêncio ao imperador que
mandasse soltar a Jorge, e depois de solto lhe disse: "Agora, Jorge
mostra-nos as maravilhas do teu Deus; e se o fizeres, todos creremos nele.
Respondeu Jorge: "Nobre Cônsul, Deus que todas as coisas criou do nada,
poderoso é para, por mim, ressuscitar este defunto; mas como vossas almas
estão cegas, não podereis entender a verdade; porém, por amor do povo
presente, isto que pedis tentando-me, Deus o obrará por mim, para que o
não atribuas a arte mágica. Pois este mágico que aqui o trouxeste,
confessa que nem por encanto, nem pelo poder dos vossos deuses, pode um
morto ser ressuscitado, em diante de todos vós chamo a meu Deus"; e
dizendo isto, pôs os joelhos em terra, e quase chorando orava a Deus, e
levantando-se disse em alta voz: "Oh! eterno Deus de misericórdia, Deus de
todas as virtudes, e que todas as coisas pode, que não frustreis a
esperança dos que em vós confiam. Senhor Jesus Cristo, ouvi este mísero
servo vosso, nesta hora, assim, como ouvistes, Santos Apóstolos em todo o
lugar, dando-lhes poder para fazeres milagres e sinais. Dai, Senhor, a
esta geração má o sinal que pode, e ressuscitai este morto para glória
vossa, e do Padre e do Espírito Santo. Rogo-vos, Senhor, que mostreis a
estes circunstantes serdes só vós, Deus Altíssimo sobre toda a terra e que
eles conheçam serdes vós Senhor poderoso, a cuja vontade todas as coisas
estão sujeitas e que vossa será a glória para todo sempre. Amém". Dizendo
Amém, se ouviu um grande som, de maneira que tremeram todos.
Logo se levantou grande alvoroço e tumulto
no povo e muitos deles louvaram a Cristo, dizendo que era o verdadeiro
Deus.
O imperador e os seus familiares, espantados e cheios de incredulidade,
diziam que Jorge era um grande mágico, e que metera algum espírito naquele
corpo para enganar os circunstantes; mas depois que verdadeiramente viram
e conheceram ser homem o que ressurgira, e que chamava a Jesus Cristo,
indo correndo para Jorge, não sabiam mais o que dizer. Athanazio,
encantado, vendo esta maravilha, lançou-se aos pés de Jorge, dizendo em
alta voz que Cristo era Deus todo poderoso, e rogava ao Santo, que lhe
alcançasse o perdão de seus pecados.
Daí a pouco fez o imperador calar o povo, e
disse-lhe: "Veremos o engano e malícia destes feiticeiros? Este Athanazio,
semelhante a Jorge, ambos de uma mesma arte, favorecem um ao outro; e as
bebidas venenosas, não lha deu, mas deu-lhe outra cheia de encantamento
para nos enganar". Acabando de dizer isto, mandou logo degolar Athanazio
com o que fora ressuscitado, dizendo o pregão que era por confessarem a
Cristo por Deus, e a Jorge mandou meter no cárcere, onde o Santo dava
graças a Nosso Senhor pelas grandes maravilhas que por ele fazia.
E estando ali no cárcere, vinham a ele
muitos dos que tinham recebido a fé pelas maravilhas que foram feitas. e
desrespeitando os guardas, se lançavam aos pés dele, entre os quais alguns
enfermos que, em virtude do sinal e do nome do Cristo, foram por ele
curados. Andando um pobre homem lavrando a sua terra, um dos bois com que
lavrava caiu em terra e morreu; e ouvindo a fama de Jorge foi correndo ao
cárcere, chorando a perda do boi. Disse-lhe Jorge: "Vai alegre, porque
Cristo, meu Senhor, tornou teu boi à vida". Crendo ele em suas palavras,
foi correndo e achou o boi vivo como Jorge dissera, e logo sem mais se
deter, tornou este homem, chamado Glycero, a Jorge, o ia pela cidade
dizendo em vozes: "Muito grande é o Deus dos Cristãos". Uns cavalheiros o
prenderam e mandaram dizer ao imperador o que se passara; o tirano cheio
de ira o mandou degolar fora da cidade.
E Glycero, muito alegre, como se fosse a algum convite, ia correndo diante
dos soldados que o levaram ao martírio, e com alta voz chamava ao Senhor,
pedindo- lhe que recebesse o seu martírio. E desta maneira acabou a vida.
Neste tempo, alguns dos senadores foram acusar Jorge ao imperador, dizendo
que estando no cárcere abalava o povo e fazia a muitos receber a fé de
Cristo.
Ouvindo isto, o imperador tomou conselho
com Magnêncio, e no dia seguinte mandou aparelhar sua cadeia junto ao
templo de Apolo, para que ali publicamente, fosse Jorge, perguntado.
Naquela noite, orando Jorge no cárcere e adormecendo, viu em sonho o
Senhor que por sua mão o levantava e abraçava, e lhe punha uma coroa na
cabeça, e dizia: "Não temas, mas tem forte o coração, pois já és digno e
mereces reinar comigo, não tardes em vir gozar dos bens eternos, que te
estão preparados". Acordando e dando graças a Deus com muita alegria,
chamou o carcereiro e disse-lhe: "Rogo-vos irmão, que deixeis entrar neste
cárcere meu empregado, porque me importa falar com ele". Concedendo o
carcereiro o seu pedido, entrou o moço que estava muito triste pelos
tormentos que passava o seu senhor. Levantou-o da terra onde se lançara,
chorando, consolou-o, esforçou-o e disse-lhe: "Filho, muito cedo me
chamara meu Senhor para si, mas depois que passar desta vida, tomarás este
mísero corpo e leva-lo-ás a Palestina, à casa onde morávamos, e Deus será
guia de teu caminho, e não apartes nunca da fé de Cristo". E
prometendo-lhe o criado com muitas lágrimas, que assim o faria, abraçou-o
o Santo e mandou-lhe que fosse dali em paz.
No dia seguinte, assentado Diocleciano em sua cadeira imperial, mandou vir
Jorge perante si, e começou com muita mansidão e falar-lhe desta maneira:
"Dize-me, Jorge, não te parece que sou muito humano e benigno para ti?
Testemunhas me sejam todos os deuses como me pesa em extremo de tua
mocidade, assim em flor, da tua gentileza e formosura, como também pelo
assento de tua descrição e constância de ânimo. E desejo muito, se te
apartares da fé cristã, que mores juntamente comigo, e seja a segunda
pessoa do meu império. Agora me responde o que te parece."
Respondeu Jorge: "Razão era, imperador, se
tamanho amor e afeição me tinhas que me não perseguisse, como o inimigo
principal, e não executarás em mim tantos tormentos por satisfazer com tua
ira".
Ouviu o imperador isto com bom gosto e disse a Jorge: "Se me quiseres
obedecer como pai, eu te compensarei os tormentos que te fiz dar, com
muitas grandes honras que te farei".
Disse então Jorge: "Se queres, imperador,
vamos ao templo a ver esses deuses que vós outros honrais". Levantou-se
logo o imperador com grande alegria, e mandou declarar público que o
Senado e todo o povo viesse ao templo. Indo o povo para o templo, louvava
ao imperador pela vitória que, cuidavam, alcançara Jorge. Entrados todos
no templo, e aparelhado o sacrifício, tinham todos postos os olhos no
mártir esperando que sem nenhuma dúvida havia de sacrificar.
Jorge chegou à estátua de Apolo, e estendendo a mão, disse: "Por que coisa
quereis tu que te ofereça sacrifícios como a Deus?." E logo faz o sinal da cruz. O demônio, que dentro do ídolo estava, bradava
dizendo: "Não sou Deus, nem algum semelhante a mim é o Deus a quem pregas.
Nós, de Anjos fomos feitos diabos, e enganamos os homens pela inveja que
lhes temos. Perguntou-lhe então Jorge: "Pois como ousais vós outros estar
aqui neste lugar estando eu presente, que adoro o verdadeiro Deus?"
Dizendo isto se sentiu um ruído, como choro que saía das estátuas, e
caíram todos os ídolos em terra e fizeram-se em pedaços.
Levantaram-se então alguns dos do povo
acesos em ira e fúria, instigando os sacerdotes, tomarem Jorge, e
açoitando-o, bradavam dizendo. "Mate este feiticeiro, oh! Imperador, mate
este mágico". E correndo estas novas, logo pela cidade, a imperatriz
Alexandra, não podendo mais encobrir a fé de Cristo que tinha, veio com
grande pressa, e vendo o alvoroço do povo e Jorge preso, e longe dela, e
que pela muita gente não podia chegar a ele, bradou em alta voz e dizia:
"Deus de Jorge, ajudai-me". Pacificando o alvoroço do povo mandou
Diocleciano trazer diante de si Jorge, e com grande ira lhe disse: "Mau
homem, desta maneira agradeces a bondade com que te trato? "Deste modo
costuma sacrificar aos deuses? "Respondeu Jorge: "Sem dúvida, imperador,
que deste modo, aprendi eu a sacrificar aos teus deuses: daqui em diante
tem vergonha de atribuir a saúde que tens a tais deuses, os quais não
podem sofrer a presença dos servos de Cristo".
Dizendo estas palavras o Santo, chegou a imperatriz e disse ao imperador o
que tinha dito d'antes, e lançou-se aos pés de Jorge. Vendo isto o
imperador, disse: "Que novidade é esta, Alexandra, que te afeiçoou a este
mágico encantador? A bem-aventurada imperatriz não lhe quis responder,
tendo-o por indigno de sua resposta. O cruel imperador, cheio de ira e
furor pela mudança da imperatriz, deu contra Jorge e contra ela a sentença
seguinte: Mando degolar a esse péssimo Jorge, o qual , assim aos deuses
como a mim injuriou gravemente; e o mesmo fez Alexandra, imperatriz,
enganada com seus feitiços.
Tomaram logo os soldados Jorge e o levaram preso fora da cidade,
juntamente com a nobilíssima imperatriz, que orando a Deus como alegre
ânimo, caminhava para o lugar do martírio; e indo assim, chegando a um
certo lugar, pediu que a deixassem assentar um pouco, e assentando sobre o
seu vestido, inclinou a cabeça sobre os joelhos e assim deu o espírito a
Deus.
Por essa razão a bem-aventurado mártir, Jorge louvando e dando graças a
Deus caminhava com grande alegria. Chegando ao lugar determinado fez
oração ao SENHOR, dizendo:
"Bendito sois, Senhor
Deus meu, porque não permitistes que eu fosse despedaçado pelos dentes
daqueles que me queriam e buscavam, nem consentiste que meus inimigos
ficassem alegres com a vitória: porque livraste a minha alma, como pássaro
do laço dos caçadores. Pois agora, Senhor, também me ouvi, sede comigo
nesta última hora, e livrai a minha alma da maldade dos malignos
espíritos; e todos os males que por ignorância em mim executam, lhes
perdoai. Recebei, Senhor, a minha alma com aqueles que desde o princípio
do mundo vos serviram, e esquecei-vos de todos os meus pecados, que eu
voluntariamente, ou por ignorância cometi".
"Lembrai-vos, Senhor, dos que recorrem ao
vosso Santo nome, porque vós sois Santo, Bendito e Glorioso para sempre,
Amém".
Acabando de dizer isto, estendeu o pescoço
com alegria e foi degolado, e entregou sua alma nas mãos dos anjos a 23 de
Abril, fazendo excelente confissão de fé pura e sã pelo ano 303. Os restos mortais de São Jorge foram
transportados para Lidia (Antiga Dióspolis), onde o Santo foi sepultado, e
onde o imperador Cristão Constantino, mandou erguer suntuoso oratório
aberto aos fiéis para que o Culto ao Santo fosse espalhado. Seu culto
espalhou-se imediatamente por todo o Oriente. Pelo século V, já haviam
cinco igrejas em Constantinopla dedicadas a São Jorge. Só no Egito, nos
primeiros séculos após sua morte, construíram-se quatro igrejas e quarenta
conventos dedicados ao mártir. Na Armênia, em Bizôncio, no Estreito de
Bósforo na Grécia, São Jorge era inscrito entre os maiores Santos da
Igreja Católica. No Ocidente, na Idade Média, as Cruzadas colocaram São
Jorge à frente de suas milícias, como Patrono da Cavalaria. Na Itália era
padroeiro de Gênova. Na Alemanha, Frederico III criou uma ordem Militar.
Na França, São Gregório de Tours era conhecido pela devoção a São Jorge.
Nas Gálias, o rei Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e sua esposa, Santa
Clotide, erigiu várias igrejas e conventos em sua honra. A Inglaterra foi
o país Ocidental onde a devoção ao Santo teve papel mais saliente. O
monarca Eduardo III colocou a proteção de São Jorge a Ordem da Cavalaria
da jarrateira, fundada por ele em 1330.
Os Ingleses escolheram São Jorge como padroeiro do país, imitando os
gregos que, também, trazem a cruz de São Jorge na sua bandeira.
E ainda durante a Grande Guerra (1914-1918
muitas das medalhas foram cunhadas e oferecidas aos enfermeiros militares
e as irmãs de caridade que se sacrificaram ao tomar conta dos feridos da
guerra.
As artes, também, divulgaram amplamente a imagem do santo. Em Paris, no
Museu do Louvre, há um quadro famoso de Rafael (1483-1520), intitulado
"São Jorge vencedor do Dragão". Na Itália, existem diversos quadros
célebres; um deles está em Veneza, de autoria do pintor Carpaccio
(1450-1525) e outro, não menos notável, pintado por Donatello (1386-1466).
E hoje, no mundo inteiro, invocam o Santo, pedem sua intercessão e elogiam
os admiráveis rasgos de sua poderosa proteção.